Refluxo da história

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Crônicas, Escritos

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-Michael Anthony Lahue

“A civilização avançará nos sertões…no esmagamento inevitável das raças fracas pelas raças fortes…. Vivendo parasitariamente à beira do Atlântico dos princípios elaborados na Europa, e armadas pela indústria…tivemos na ação um papel singular de mercenários inconscientes…. Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.”

Em 1901, um certo repórter do Estado de S. Paulo enunciou estas palavras na Nota preliminar da sua obra, Os sertões, cobertura jornalística do massacre de Canudos de 1897. Euclides da Cunha pode ser comparado aos jornalistas independentes de hoje que decifram a propaganda enganosa e capitalista do complexo industrial-militar, denunciando a guerra em toda a sua brutalidade e ignorância e sublinhando as questões sociais e humanas inerentes.

Em 2001, num refluxo da história, o maior império de toda a existência humana, num ato inimaginável de terrorismo internacional, declarou guerra contra o mundo e invadiu as terras tribais dos sertões do Oriente Médio,
desencadeando um verdadeiro flagelo de violência selvagem e inconsciente sob o nascedouro da nossa civilização. or-37264Este império, que representa apenas quatro porcento da população do planeta e consome vinte porcento dos recursos, vive na terra como se fosse um carrapato nas costas duma capivara, sugando e se propagando. Deste sangue dos nossos conterrâneos nascem as larvas do capitalismo, prontas para aproveitar novos contratos, reconstruindo o mundo na sua imagem por cima dos escombros das cidades devastadas e das almas dos mortos.

Pois, é o próprio sangue da terra, a luz do sol antiquíssimo, o valioso petróleo, que estas insaciáveis parasitas cobiçam; o poder e a riqueza que elas desfrutam. Nós, no entanto, somos apenas subsidiários dispensáveis na marcha incessante rumo à ordem e ao progresso.

Escrevi estas palavras em 2005, e hoje em 2016, a marcha do positivismo e seus ideais capitalistas continua. As ruínas da igreja de Canudos só aparecem, ironicamente, quando o Açude do Cocorobó abaixa devido às estiagens que são cada vez mais frequentes por causa do aquecimento global, resultado da queima dos combustíveis fósseis. maxresdefault-1O descobrimento destas ruínas é uma lembrança dos erros do passado que nos conscientiza sobre os erros do presente. Neste ano, a eleição nos EUA que colocou a voz da intolerância no poder, e o golpe político no Brasil que derrotou a democracia, demonstram que aqueles que possuem o poder, a influência e o dinheiro são determinados a impor a sua ideologia e dar continuidade no seu projeto de capitalismo neoliberal. Temos a responsabilidade como cidadãos e seres humanos de superar as contradições e injustiças do nosso mundo e conviver num modo mais gentil, como dizia o profeta carioca.

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